São Paulo volta a ocupar um lugar especial na história da traumatologia ortopédica brasileira. Cidade que sediou o primeiro Congresso Brasileiro de Trauma Ortopédico (CBTO), recebe agora a 31ª edição do evento, consolidado como um dos principais fóruns de atualização científica, troca de experiências e fortalecimento da especialidade no país.
Com mais de mil congressistas vindos de todos os estados brasileiros, o CBTO, que acontece até sábado (6/6), reúne 32 expositores que apresentam as principais inovações, tecnologias e tendências do setor. Com forte projeção e intercâmbio de conhecimento, o congresso conta, ainda, com 346 trabalhos científicos inscritos, além da presença de dez países, entre palestrantes e participantes (Argentina, Bélgica, Bolívia, Colômbia, Costa Rica, Equador, Estados Unidos, México, Paraguai e Peru).
Abertura marcada por homenagem
A união institucional e o fortalecimento da ortopedia nacional abriram os discursos do XXXI CBTO. Presente ao evento, o presidente da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT), Dr. Miguel Akkari, destacou a força e a integração dos comitês: “Eu vejo um evento desse, é um orgulho, mais de mil pessoas aqui em um feriado. A SBOT não existe sem os Comitês e os Comitês não existem sem a SBOT. Nós somos uma coisa única, temos que trabalhar juntos”.
Essa sinergia foi endossada pelo presidente da SBTO, Dr. Luiz Henrique Penteado da Silva, que fez um agradecimento especial à Diretoria e ressaltou as oportunidades de evolução proporcionadas pelo Congresso. “Novos conhecimentos levam a novas amizades, que levam a novas ideias, que levam à inspiração e, acima de tudo, que levem a ferramentas para oferecer um tratamento cada vez melhor aos pacientes”, pontuou.
A emoção tomou conta de cerimônia, com merecidas homenagens àqueles que dedicaram suas vidas a construir a ortopedia brasileira. Dr. Caio Zamboni prestou um tributo comovente ao Dr. Marcelo Mercadante, falecido em abril deste ano. “Foi médico, professor, líder, formou gerações e presidiu nossa Sociedade em 2009. Mas talvez sua maior obra tenha sido o que deixou a todos que cruzaram o seu caminho: ensinamentos e a amizade sincera. A melhor forma de homenagear não é lamentar sua partida, mas o privilégio de termos caminhado ao seu lado”, disse.
A homenagem ao presidente de honra do Congresso, Dr. José Hungria Neto, foi conduzida por seu filho, Dr. José Octávio Soares Hungria, que relembrou a trajetória pessoal e profissional do pai. “Ele abriu o caminho, mostrou o caminho e me deixou criar meus próprios caminhos. Ele é meu super-herói e super-herói não morre. Ele continua aqui, ao meu lado, para sempre”.
O presidente do Congresso, Kodi Kojima, lembrou que o legado não é apenas o que se guarda, “mas o que continuamos a fazer a partir do que deixaram. Agora, o legado está conosco e cada um de nós tem o papel de dar continuidade”.
Fraturas complexas e desafios do tratamento
A programação científica teve início com um bloco dedicado às fraturas complexas, abordando estratégias de fixação e manejo de lesões de alta complexidade, como fraturas da diáfise distal do úmero, colo do fêmur em pacientes jovens, patela cominutiva e pilão tibial.
Na sequência, mesas-redondas promoveram discussões aprofundadas sobre fratura transtrocantérica do fêmur e estratégias de resolução de casos envolvendo fraturas do planalto tibial Schatzker V e fraturas distais do úmero, estimulando a troca de experiências entre especialistas e participantes.
Formação acadêmica e incentivo à pesquisa
O futuro da traumatologia ortopédica também ganhou espaço de destaque com o CBTO Acadêmicos, iniciativa voltada aos estudantes de Medicina interessados na especialidade.
A programação reuniu palestras ministradas por especialistas de referência nacional, abordando temas fundamentais da urgência ortopédica, como atendimento ao politraumatizado, trauma raquimedular, fraturas expostas, membro mutilado, trauma do quadril no idoso e trauma pediátrico.
Além das atividades científicas, os participantes tiveram acesso a uma área exclusiva para exposição de pôsteres. Os melhores trabalhos apresentados foram selecionados para apresentação oral ao final do encontro, com certificação de destaque acadêmico.
Intercâmbio internacional e atualização científica
As conferências internacionais reforçaram a vocação do Congresso para o intercâmbio global de conhecimento.
Participaram da programação os especialistas Mark Reilly e George Dyer, dos Estados Unidos, e Willem-Jan Metsemakers, da Bélgica. Os convidados compartilharam experiências e evidências relacionadas à fixação e revisão de fraturas periprotéticas do fêmur tipo B2, planejamento cirúrgico e princípios gerais do tratamento das infecções relacionadas às fraturas.
As apresentações permitiram aos participantes conhecer diferentes abordagens adotadas em centros de referência internacionais, ampliando o debate sobre desafios comuns à prática ortopédica em diferentes países.
Artroplastia, casos clínicos e discussão interativa
Ao longo da tarde, o Simpósio AO promoveu discussões sobre a utilização da artroplastia no trauma agudo, abordando sua aplicação em lesões do ombro, cotovelo, fêmur proximal e acetábulo.
A programação incluiu ainda uma sessão interativa de discussão de caso sobre fratura distal do fêmur, incentivando a participação ativa da plateia, além de uma mesa-redonda dedicada à fratura trimaleolar do tornozelo, ampliando o debate sobre indicações terapêuticas e tomada de decisão clínica.
Produção científica e análise de casos complexos
As sessões de Temas Livres reuniram estudos científicos voltados a diferentes aspectos da traumatologia ortopédica, incluindo análises biomecânicas, alinhamento ósseo, tratamento de fraturas, infecções relacionadas a fraturas, lesões da sindesmose e avanços em técnicas cirúrgicas e métodos de fixação.
Paralelamente, a sessão de Casos Complexos promoveu discussões aprofundadas sobre situações desafiadoras da prática ortopédica, envolvendo fraturas do úmero, antebraço, rádio distal, pelve e acetábulo, fêmur, patela, planalto tibial e tornozelo.
Mais do que apresentar condutas, os debates estimularam a análise crítica das evidências disponíveis e a troca de experiências entre profissionais com diferentes trajetórias e áreas de atuação.
Infecção relacionada à fratura e integração latino-americana
Encerrando a programação, um dos temas mais desafiadores da especialidade ganhou destaque: a infecção relacionada à fratura.
As atividades abordaram conceitos fundamentais para definição diagnóstica, sistemas de classificação e critérios para tomada de decisão quanto à retenção ou remoção de implantes, tema de grande relevância na prática clínica.
O Congresso também fortaleceu a integração por meio de atividades desenvolvidas em parceria com sociedades latino-americanas de trauma ortopédico. As discussões incluíram fraturas da extremidade distal do fêmur e prevenção de falhas, fraturas trifocais do fêmur, fraturas peri-implantares e lesões complexas da tíbia, além de lesões provocadas por ferimentos por arma de fogo.
Ao reunir especialistas, pesquisadores, residentes e estudantes, o XXXI Congresso Brasileiro de Trauma Ortopédico atua diretamente como espaço de construção coletiva do conhecimento, atualização científica e fortalecimento da traumatologia ortopédica brasileira, mantendo viva uma trajetória iniciada há mais de três décadas e voltada para os desafios do presente e do futuro da especialidade.